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domingo, 29 de abril de 2012

FILHA DO IMPROVÁVEL


















Sou filha do desencontro
Da agonia e da improbabilidade
Da fantasia e da desigualdade
Da intempérie tenebrosa na noite escura
Do desenlace e da loucura
Do desejo e da necessidade
Do desencanto e do frio
Da incongruência e do vazio
Do acaso e da perdição
Do grito de dor e da solidão
Da incompreensão e do desalento
Da indiferença da perturbação

Sou filha do sopro
Semente sem guarida
Sem laços perdida
Consciência que levanta os olhos ao céu
Que reacende a luz em gélido breu
Porque a centelha de vida é mais forte que a morte
O equilíbrio mais forte que a desigualdade
A mentira mais infame que a verdade
O bem mais poderoso que a maldade

Chamem-me louca tarada mal-amada
Falsa cruel desequilibrada
Pouco me importa
Pois em cada um de nós há sempre a personagem
Pronúncio da sensatez perfeição amabilidade
Que é aplaudida pela audiência
E a personagem que mina as regras
Esquece os bons costumes
Combate os infames
Porque a norma somos nós que a fazemos

A vingança está em ultrapassar o preconceito
Em ser dona e senhora do meu leito
Porque a vida me trocou as voltas
Entre a ambição e o ser
Entre o perfeito e o defeito
Entre nada ter e ter direito!!

AnaMariaOliveira

sábado, 28 de abril de 2012

NO COMPASSO DO TEMPO




No compasso do tempo,
na planura da vida,
grita o sossego no medo
da dor
e do desassossego.


Na viagem ao espaço da alma,
na altura do templo,
sobe a riqueza na descompostura
da ambição
e da soberba.


Na espera ao nada da matéria,
na ambição do querer,
cresce a desmesura na dor
da falta
e da rutura.


Sem mais, sem nada!
Goreti Dias

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Aurora boreal do Poeta António Gedeão


 





Aurora boreal

Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto.
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.
Por uma entra a luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas
que andam no céu a rolar.
Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.
Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala
à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa,
e o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,
e a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade,
e o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,
todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.

Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar!
Com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.

António Gedeão

domingo, 22 de abril de 2012

GRÃNDOLA VILA MORENA do poeta Zeca Afonso


 





 Zeca Afonso

JOSÉ AFONSO
Grândola Vila Morena
Esta canção passou na Rádio na noite de 24 para 25 de Abril, como código destinado a informar as Forças Armadas acerca dos sucessos do movimento revolucionário.
 
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade

O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina um amigo

Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade

Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira

Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade

Grândola a tua vontade

Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade.


Zeca Afonso




 
25 de Abril, sempre!!!

    












FRACO OU FORTE um poema de Alexandre O'Neill


Nada na mão
algo na v'rilha
remancho as noites
e troto os dias
entre tabaco
viris bebidas
fraco mas forte
de muitas vidas
(que eu já dormi
co'as duas mães
e as duas filhas
que vão à missa
com três mantilhas)

Nada na mão
algo na v'rilha
sofro comigo
luta intestina
(ao bem ao mal
a mesma alpista)
bebo contigo
cerveja uísqui
p'ra que se veja
mais rubra a crista

Nada na mão
algo na v'rilha
encontro a morte
no meio da vida
morte bonita
nada aflita
(ou é da minha
tão fraca vista?)
e tenho sorte

Nada na mão
algo na v'rilha
invisto contra
o zero puro
da minha vida
e duro, duro!

(Alexandre O´Neill)

Poesias Completas
1951/1981
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